quinta-feira, 7 de abril de 2011

Soneto da separação

De/ re/pen/te/ do/ ri/so/ fez/-se o/ pran/to
Si/len/ci/o/so e /bran/co/ co/mo a/ bru/ma
E/ das/ bo/cas/ u/ni/das/ fez/-se a es/pu/ma
E/ das/ mãos/ es/pal/ma/das/ fez/-se o es/pan/to.

De/ re/pen/te/ da/ cal/ma/ fez/-se o/ ven/to
Que/ dos/ o/lhos/ des/fez/ a úl/ti/ma/ cha/ma
E/ da/ pai/xão/ fez/-se o /pres/sen/ti/men/to
E/ do/ mo/men/to i/mó/vel/ fez/-se o/ dra/ma.

De/ re/pen/te/, não/ mais/ que/ de/ re/pen/te
Fez/-se/ de/ tris/te o/ que/ se/ fez/ a/man/te
E/ de/ so/zi/nho o/ que/ se/ fez/ con/ten/te.

Fez/-se/ do a/mi/go/ pró/xi/mo o/ dis/tan/te
Fez/-se/ da/ vi/da u/ma a/ven/tu/ra er/ran/te
De/ re/pen/te/, não/ mais/ que/ de/ re/pen/te.

Nível rítmico

Segundo Goldstein (2005), “o poema de forma fixa mais encontrado é o soneto”. Essa forma simétrica é composta por catorze versos, distribuídos em dois quartetos (estrofes de quatro versos) e dois tercetos (estrofes de três versos), além de apresentar versos decassílabos (dez sílabas poéticas) em toda estrutura.

O Soneto da separação, de Vinícius de Moraes, exibe o esquema rítmico ABBA CDCD EFE FFE. Assim, na primeira estrofe, as rimas “A” classificam-se como interpoladas, enquanto as rimas “B” denominam-se emparelhadas. Na segunda estrofe, as rimas “C” e “D” são cruzadas. Já, na terceira estrofe, as rimas “E” são interpoladas. Por fim, na quarta estrofe, as rimas “F” são emparelhadas.

Todas as rimas do soneto podem ser classificadas como consoantes uma vez que apresentam semelhança de consoantes e vogais.

A primeira, a segunda e a quarta estrofes são formadas por rimas pobres quanto aos aspectos gramatical e fônico, enquanto a terceira estrofe apresenta rima rica considerando o aspecto gramatical e rima pobre analisando o aspecto fônico.

Quanto à posição do acento tônico, se tem rimas graves em decorrência da utilização de palavras paroxítonas.

Dentre os recursos sonoros utilizados na composição, destacam-se o uso de aliterações, ou seja, a repetição de sons consonantais específicos ao longo do poema (pranto, espuma, espanto, espalmadas; branco, bruma, bocas). Outra figura de efeito sonoro facilmente identificável é a assonância, que consiste na repetição das vogais /e/ e /o/ no decorrer do soneto. Por fim, a repetição das palavras e expressões “de repente”, “de repente, não mais que de repente”, “fez-se” (ou “se fez”), “de” (e suas flexões) e denomina-se anáfora. O emprego da conjunção “e” repetidas vezes é chamado de polissíndeto. Esses recursos representam a musicalidade.

Nível semântico

No soneto em questão, Vinicius de Moraes emprega a comparação nos versos “De repente do riso fez-se o pranto/ Silencioso e branco como a bruma” e algumas antíteses, caracterizadas pela aproximação de idéias contrárias, como: “De repente do riso fez-se o pranto”, “De repente da calma fez-se o vento”, “Fez-se de triste o que se fez amante”, “E de sozinho o que se fez contente”, “Fez-se do amigo próximo o distante”. As relações antitéticas revelam as mudanças na relação amorosa que se processam de uma forma abrupta e inesperada.  No soneto, ainda, é facilmente identificável a ocorrência de hipérbatos, a troca da ordem direta dos termos da oração: “De repente do riso fez-se o pranto”, “E das bocas unidas fez-se a espuma/ E das mãos espalmadas fez-se o espanto”, “De repente da calma fez-se o vento/ Que dos olhos desfez a última chama/ E da paixão fez-se o pressentimento/ E do momento imóvel fez-se o drama”.

Nível lexical

O poeta acentua o dinamismo que caracteriza o poema através do emprego da forma verbal "fez-se" e de sua forma contrária "desfez”. A utilização do verbo “fazer” conjugado no pretérito perfeito indica o distanciamento e a conclusão da ação, respectivamente. O modo indicativo foi utilizado para demonstrar a veracidade, a certeza sobre a ocorrência dos fatos.

O soneto conta com um número de adjetivos bastante expressivo, entre eles: “silencioso”, “branco”, “unidas”, “espalmadas”, “última”, “imóvel”, “triste”, “amante”, “sozinho”, “contente”, “próximo”, “distante”, “errante”. Os substantivos abstratos presentes no poema transmitem ideia de generalização, enquanto os concretos significam a particularização: “riso”, “pranto”, “bruma”, “bocas”, “espuma”, “mãos”, “espanto”, “olhos”, “chama”, “calma”, “vento”, “momento”, “drama”, “vida”, “aventura”. No primeiro verso do último terceto, há a substantivação do adjetivo “amigo”. Por diversas vezes, os adjetivos estão diretamente ligados aos substantivos: “pranto silencioso e branco”, “bocas unidas”, “mãos espalmadas”, “última chama”, “momento imóvel”, “amigo próximo, distante”, “aventura errante”.

A locução adverbial “de repente” é utilizada para demonstrar a forma imprevista como ações ocorreram. Percebe-se a ocorrência do pronome relativo “que” em “De repente da calma fez-se o vento/ Que dos olhos desfez a última chama”, “Fez-se de triste o que se fez amante/ E de sozinho o que se fez contente”. A conjunção “como” permite a comparação, em “Silencioso e branco como a bruma”.

Observando a pontuação, se percebe que as estrofes encerram com o ponto-final. Esse sinal gráfico tem o objetivo de encerrar os períodos compostos, além de marcar uma pausa durante a leitura do soneto. A vírgula faz-se presente em “De repente, não mais que de repente”, denunciando o adjunto adverbial deslocado e enfatizando a repetição do termo “de repente”.

Nível sintático

Vinícius de Moraes utilizou o encadeamento, que é uma construção sintática especial utilizada para ligar um verso ao seguinte com o objetivo de completar o seu sentido: “De repente do riso fez-se o pranto/ Silencioso e branco como a bruma”; “De repente da calma fez-se o vento/ Que dos olhos desfez a última chama”. Outro recurso presente no soneto é o paralelismo: “De repente do riso fez-se o pranto/ Silencioso e branco como a bruma/ E das bocas unidas fez-se a espuma/ E das mãos espalmadas fez-se o espanto. De repente da calma fez-se o vento/ Que dos olhos desfez a última chama/ E da paixão fez-se o pressentimento/ E do momento imóvel fez o drama/ De repente, não mais que de repente/ Fez-se de triste o que se fez amante/ E de sozinho o que se fez contente/ Fez-se do amigo próximo o distante/ Fez-se da vida uma aventura errante/ De repente, não mais que de repente.”. Ainda no nível sintático, se pode considerar a gradação. Há a mescla entre características físicas (olhos, mãos, boca), sentimentais (expressas por riso, pranto, espanto) e vivenciadas (aventura errante).

O soneto é formado por períodos compostos por coordenação e por períodos mistos: De repente do riso fez-se o pranto/ Silencioso e branco como a bruma (Oração coordenada assindética)/ E das bocas unidas fez-se a espuma (Oração coordenada sindética aditiva)/ E das mãos espalmadas fez-se o espanto. (Oração coordenada sindética aditiva). Em “(1) De repente da calma fez-se o vento (Oração principal)/ (2) Que dos olhos desfez a última chama (Oração subordinada adjetiva restritiva em relação à oração 1; Oração coordenada assindética em relação à oração 3)/ (3) E da paixão fez-se o pressentimento (Oração coordenada sindética aditiva)/ (4) E do momento imóvel fez o drama (Oração coordenada sindética aditiva).

Considerações finais

Já no título “Soneto de separação”, o autor adianta a temática do poema: a idealização e a ênfase da dor da separação. Ao longo do texto, há descrições do momento de intensa dor. O riso tornou-se um lamento, um vazio, os beijos não incidem mais, o toque das mãos passou a ser considerado algo anormal, causador de espanto, o desejo que transparecia através do olhar apagou-se como o vento apaga uma chama. Ao invés da paixão, cresce a incerteza, o drama. Repentinamente, o eu-lírico, outrora, amante e contente, se tornou triste, sozinho e chora por alguém que está distante. Há relação entre o passado e o presente. O autor descreve os momentos anterior e posterior à separação.

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